Morando no Uruguai – Entrevista com Brug Gimenes

Entrevista com meu grande amigo Bruno Gimenes:

Nosso processo de sair do Brasil, na verdade, não começou com a ideia de “morar no Uruguai”, e sim com a ideia de “sair de São Paulo”.

Eu e a Dessa estávamos bastante incomodados com a famosa rotina de “viver em Guarulhos – trabalhar em São Paulo”. Você sabe que é pesado. Eu mesmo, que morava no Pimentas (não precisa esconder a carteira) levava 2,5 horas pra ir e mais 2,5 horas pra voltar. Todos os dias. Durante anos. Chega uma hora que a vontade de dar um foda-se pra “estabilidade” no emprego, casa, carro é grande. E foi basicamente isso que aconteceu.

Começamos a conversar a respeito, pensar em algumas coisas, e vimos que nós dois nos sentiamos de forma parecida. Apesar de sairmos com frequencia, a sensação geral era meio de prisão, sabe?

Como assim “sensação de prisão?”

Tirando alguns lugares bem específicos, não é muito comum sair pra dar uma caminhada a noite. O tempo todo temos que estar espertos para não nos roubarem. “Tá no metrô? Leva a mochila na frente senão alguém abre e rouba”. “Tá saindo da faculdade? Vai com a galera até o ponto pra não ter muito problema” “Vai sacar dinheiro? Olha antes pra ver se não vem ninguém”

Esse tipo de coisa é tão normal que chega uma hora que a gente nem percebe. Mas sei lá, acho meio escroto levar isso tão naturalmente assim.

E como surgiu a ideia de morar no Uruguai?

Ah sim. Chegou um dia em meados de 2014 que a gente meio que decidiu. E aí, fomos ver lugares com um IDH mais alto e esse tipo de coisa. Vimos que algumas capitais do Brasil eram melhores que São Paulo, mas aparentemente teriamos os mesmos problemas. Florianopolis, Brasilia, Vitoria, Belo Horizonte. Lembro que eram capitais com indices melhores que São Paulo. Mas nem eu nem a Dessa nunca nos interessamos por nenhuma. Aí tentamos ver algo no interior de algum lugar. Lembro que Maringá, no Paraná, tinha indices muitíssimos bons. Chegamos a ir lá conhecer, Dessa até fez uma entrevista. Mas, interior pra TI, você sabe como é, né? Não tem trampo. Aí, não rola.

Aí em algum momento eu tive a ideia de buscar então capitais em outros países da América do Sul. E nessa eu descobri que Montevideo tinha os melhores indices de IDH de toda América Latina. E aí, por consequencia, descobri que o Uruguai também tinha seus méritos. Foi quando comprei uma passagem pra janeiro de 2015 pra ficarmos 12 dias aqui e 5 em Buenos Aires e assim ver qual era a pegada.

E essa era sua primeira viagem internacional ou você já tinha tido alguma experiência morando fora?

Isso, nunca tínhamos saído do Brasil.

Chegamos aqui em Montevideo, lembro que pegamos um onibus do aeroporto até perto do hotel. Quanta árvore mano. Árvore pra caralho, toda rua, cheia de árvore. Primeira impressão tipo, “UAU!”.

A viagem era assim: 2 dias no Uruguay, 5 dias em Buenos Aires e mais 10 dias no Uruguay.

Durante os 5 dias em Buenos Aires, a gente já tinha gostado muito da cidade, e eu cheguei a enviar uns currículos pra algumas empresas que vi no LinkedIn. Mais pra ter uma noção se o fato de eu não falar espanhol era um impeditivo e tal, eu realmente não fazia ideia.

Uma pessoa me respondeu e me chamou pra conversar. Matias, o cara que futuramente me ajudaria a mudar pra Montevideo.

Lembro que cheguei na empresa, o cara que era um dos sócios estava de bermuda e chinelo. Porra mano, eu trabalhava num banco na Paulista nessa época. Pensa no choque. Aí fizemos a tal entrevista no Mc Café que tinha ali perto e foi bem de boa. Conversamos num portunhol malandro, ele não tinha nenhuma vaga mas aí eu fiquei sabendo mais ou menos quando eles pagam, como funciona, a questão do idioma. Foi um puta contato que eu fiz ali.

De resto, vivemos 12 dias em Montevideo, usando transporte público, conversando com as pessoas, e foi demais.

Quando voltamos a São Paulo, tudo parecia um pouco pior. Ficou bem dificil continuar lá depois dessa viagem. E aí a gente decidiu que eu procuraria emprego em Montevideo. E, se um dia encontrasse, a gente veria o que fazer.

Como foi o processo de busca?

Ah meu, eu fui bem burro no começo. Eu comecei procurando em sites de empregos (tipo uns Infojobs do Uruguay, sabe?). Mas aqui esses sites são bem falidos. O negócio aqui é LinkedIn mesmo. Então passei uns meses enviando CV a toa, e de vez em quando falava com o Matias pra ver se tinha algo.

Em setembro de 2015, ele me manda mensagem falando que precisavam de um Full-stack .NET em uma empresa chamada UruIT. Marcamos uma entrevista por Skype. Minha cabeça já estava a mil, afinal, era o mais próximo que eu já tinha chegado em morar lá.

Fiz a entrevista com um cara chamado Gonzalo. Em espanhol e em inglês, já que era pra trabalhar pra um cliente dos States. Saiu tudo certo. Me passaram um projeto pra fazer e enviar. Se eles gostassem, eu tava dentro.

E assim foi. Esse cara que me entrevistou, o Gonzalo, hoje somos sócios com mais três pessoas em uma Startup fintech aqui no Uruguai.

E aí, pra ir pra lá, como foi?

Tenso. Foda. Horrível.

Toda a vontade que eu tinha de ir pra lá desapareceu automaticamente quando me disseram: “Tá aprovado. Venha.”

Mano do céu, pensa num desespero. São Paulo/Guarulhos já não pareciam tão ruins. Meu trabalho no Banco não parecia mais sem sentido. Até o Armênia já não parecia mais o verdadeiro Inferno na Terra. Ao contrário, minha única vontade era não sair dali nem a pau. Queria desistir mesmo.

Mas a Dessa, como sempre, me lembrou que a gente tava indo atrás disso fazia tempo, e que eu tava sendo um covarde pau no cu por cogitar perder essa oportunidade. E que mesmo se desse tudo errado, ao menos teriamos tentado. Ela tava certa, tava sendo racional. E eu, “o racional”, tava sendo completamente nonsense.

Mas não foi fácil. A gente não tinha dinheiro. Comprei a passagem pra dali uma, duas semanas, não lembro. Ou seja, caro.

E estavamos pagando nosso apartamento em Guarulhos, né? Então, sem chances de virmos os dois juntos. Então eu vim sozinho e a Dessa ficou trabalhando.
O combinado era eu ficar três meses e ver no que dava. Se desse certo, ela viria. Se não, eu voltaria e começava tudo de novo.

Como foram esses tres meses?

Tenso. O AirBnb tava saindo caro, e eu precisava alugar algum lugar.
Mas por ser extrangeiro, a garantia tinha que ser 6 meses de aluguel adiantados, dinheiro que eu obviamente não tinha. O Matias me ofereceu emprestar esse dinheiro e descontar do meu salário nos proximos meses. E foi o que fizemos. Fiquei muito, muito aperado. O salário que eu recebia era menor que o do Banco. E o custo de vida aqui é mais alto. E ainda me descontavam uma puta grana pelo empréstimo do aluguel.

Fiquei praticamente três meses dormindo num colchão de ar e sem comprar nada pra casa. Guardei dinheiro, e, uma semana antes da Dessa vir pra cá, aí comprei fogão, cama, guarda roupa, a porra toda.

Foram os 3 meses que eu mais aprendi na minha vida. Não me arrependo nem um pouco de ter feito essa doidera de vir pra cá na cara e na coragem.

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